O PATRONO

 

Uma viagem da terra ao homem

 

António de Macedo e Silva nasceu em Santiago do Cacém no ano de 1823, sendo ordenado padre em 1846, em Lisboa. Com 24 anos de idade iniciou o sacerdócio em S. Bartolomeu, donde se transferiu depois para a Abela, fixando-se em Sines dois anos antes da sua morte, ocorrida em 1887.

De entre variados escritos, deixou-nos como obra cimeira da sua produ√ß√£o liter√°ria os ¬ęAnnaes do Municipio de Santiago de Cacem¬Ľ, em duas edi√ß√Ķes distintas (1866 e 1869 ), sendo a segunda mais completa e elaborada, impressa pela Imprensa Nacional.

Optando pelo "desterro" no seu rincão natal, o que o levou a afirmar-se mais tarde como "obscuro presbytero que tem consumido a sua vida nos ermos mais intrataveis d'este concelho" (1), são espantosas aos olhos de hoje as cópias e profundidade das matérias sobre que se debruçou.

Atenta a sua forma√ß√£o, poder√≠amos ter do Padre Ant√≥nio de Macedo uma ideia de homem conservador, arreigado aos valores do tradicionalismo religioso, avesso √†s novas do pensamento pol√≠tico, social, cultural e cientifico, seguidista da hierarquia e, contudo, ele √© exactamente o ant√≠poda de tudo isto, pela abertura de esp√≠rito manifestada e l√ļcida an√°lise que faz dos homens e da sociedade do seu tempo, √Č religioso e verbera dura e frontalmente a Igreja pelos entraves e malef√≠cios pessoais e sociais que promove; critico mordaz do absolutismo deposto e simpatizante do liberalismo implantado, n√£o se co√≠be de lhe apontar os excessos, desvarios e iniquidades que pratica e gera; podendo "gerir" a religiosidade/crendice de uma sociedade inculta e estagnada, convoca-a para a mudan√ßa, o progresso das t√©cnicas e das ideias, a abertura a um futuro mais livre e de maior participa√ß√£o na coisa publica. Neste particular, realce-se a apologia que faz do retorno √° perdida tradi√ß√£o municipalista, desde longu√≠ssima data amarfanhada pela sempre crescente morda√ßa do poder real centralizador. A prop√≥sito: acaso n√£o √© este tema, com os cambiantes que os tempos determinam, de pertinente actualidade nos dias que nos cabem?

Ler os "Annaes.." ‚Äėe como que radiografar as "coisas" e auscultar as almas da sociedade santiaguense da √©poca: da Agricultura √† Economia, da Higiene √† Sa√ļde, da Geologia √† Bot√Ęnica, dos costumes √† Sociologia, da produ√ß√£o industrial √† instru√ß√£o das gentes, etc. Por nos dizer particularmente respeito, registe-se o primado que o Padre Ant√≥nio de Macedo atribu√≠a √† ¬ęinstruc√ß√£o publica¬Ľ (2) como ¬ęuma das primeiras necessidades sociaes, o p√£o do espirito, t√£o essencial como o alimento que nos vivifica, tem sido e √© distribu√≠do no nosso paiz como os viveres em pra√ßa assediada. N√£o dizemos bem; tem sido recusado a milh√Ķes de famintos que tinham e te√™m um direito incontestavel a este viatico da intelligencil¬Ľ (2).

0 que atr√°s fica, modesto retrato da vida, obra e postura do homem que desde 11 de Julho de 1997 passou a ser Patrono da nossa Escola, mais n√£o pretende ser que um ponto de partida suscept√≠vel de mobilizar as comunidades escolar e educativa a conhecer, estudar e divulgar o legado √ļnico que nos deixou.

Oxal√° tal possa e venha a acontecer!

 

1) In Introdução aos "Annaes..." 1ª edição
2) In "Annaes..." ‚Äď 2¬™ edi√ß√£o

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